V

O inconsciente pessoal e o inconsciente suprapessoal ou coletivo
 NESTE ponto se inicia uma nova etapa no processo do conhecimento de si. A dissoluo analtica
das fantasias de 
transferncia infantis tinha prosseguido at o momento em que o prprio paciente reconheceu 
claramente que para ele o mdico tinha sido pai, me, tio, tutor, professor, ou outra das formas 
usuais de autoridade paterna. No entanto, a experincia tem mostrado insistentemente o 
aparecimento de outro tipo de fantasia: o mdico fica investido das funes de salvador ou ente com 
caractersticas divinas, contrariando frontalmente a razo sadia da conscincia. Pode acontecer 
tambm que esses atributos divinos no se limitem ao quadro cristo em que fomos criados e 
adotem, por exemplo, formas pags, teriomrficas (formas animais). 
A transferncia em si nada mais  do que uma projeo de contedos inconscientes. Primeiro so 
projetados os contedos chamados superficiais do inconsciente, reconhecidos atravs de sonhos, 
sintomas e fantasias. Neste estado o mdico interessa como um amante eventual (mais ou menos 
como o rapaz italiano daquele caso). A seguir, aparece preponderante-mente como pai: pai bondoso 
ou furibundo, conforme as qualidades que o pai verdadeiro tinha para o paciente. Uma vez ou outra 
o mdico tambm recebe atributos maternos, o que j pode parecer estranho, mas ainda est dentro 
dos limites do possvel. Todas essas projees de fantasias so calcadas em reminiscncias 
pessoais. 
 Finalmente, podem surgir fantasias de carter exaltado. Nestes casos o mdico fica dotado de 
propriedades sobrenaturais. Torna-se um bruxo, um criminoso demonaco, ou ento o bem 
correspondente: um verdadeiro salvador. Tambm pode aparecer como uma mistura de ambos. 
Entenda-se bem: tudo isso no se passa necessariamente no consciente do paciente. 
So fantasias que surgem e representam o mdico sob essas formas. Muitas vezes, no entra na cabea de tais 
pacientes que na realidade essas fantasias provm deles mesmos e nada ou muito pouco tm a ver com o 
carter do mdico. Este engano ocorre por no existirem bases de reminiscncias pessoais para este tipo de 
projeo. Ocasionalmente podemos provar que em determinado momento de sua infncia tiveram fantasias 
semelhantes em relao ao pai e  me, sem que os mesmos tivessem realmente dado motivo para isso. 
Freud demonstrou, num pequeno trabalho como a vida de Leonardo da Vinci tinha sido influenciada pelo fato 
de ele ter tido duas mes. O fato das duas mes, ou da dupla filiao, era real na vida de Leonardo. Embora 
imaginria, outros artistas tambm sofreram a influncia da dupla filiao. Benvenuto Cellini, por exemplo, teve 
fantasias a respeito dessa dupla filiao. Alis, este  um tema mitolgico. Muitos heris legendrios tiveram 
duas mes. A fantasia no vem do fato de os heris terem duas mes, mas de uma imagem universal 
primordial, pertencente aos segredos da histria do esprito humano e no  esfera da reminiscncia pessoal. 
Afora as recordaes pessoais, existem em cada indivduo as grandes imagens primordiais, como foram 
designadas acertadamente por Jakob Burckhardt, ou seja, a aptido hereditria da imaginao humana de ser 
como era nos primrdios. Essa hereditariedade explica o fenmeno, no fundo surpreendente, de alguns temas e 
motivos de lendas se reptirem no mundo inteiro e em formas idnticas, alm de explicar por que os nossos 
doentes mentais podem reproduzir exatamente as mesmas imagens e associaes que conhecemos dos textos 
antigos. Meu livro Wanlungen und Symbole der Libido 1 contm alguns exemplos. Isso no quer dizer, 
em absoluto, que as imaginaes sejam hereditrias; hereditria  apenas a capacidade de ter tais 
imagens, o que  bem diferente. 
Logo, neste estgio mais adiantado do tratamento, em que as fantasias no repousam mais sobre 
reminiscncias pessoais, trata-se da manifestao da camada mais profunda do inconsciente, onde jazem 
adormecidas as imagens humanas universais e originrias. Essas imagens ou motivos, denominei-os 
arqutipos (ou ento dominantes). 
56 
57 
Essa descoberta significa mais um passo  frente na interpretao, a saber: a caracterizao de duas 
camadas no inconsciente. Temos que distinguir o inconsciente pessoal do inconsciente impessoal ou 
supra pessoal. Chamamos este ltimo de inconsciente coletivo, porque  desligado do inconsciente 
pessoal e por ser totalmente universal; e tambm porque seus contedos podem ser encontrados em toda 
parte, o que obviamente no  o caso dos contedos pessoais. O inconsciente pessoal contm lembranas 
perdidas, reprimidas (propositalmente esquecidas), evocaes dolorosas, percepes que, por assim dizer, no 
ultrapassaram o limiar da conscincia (subliminais), isto , percepes dos sentidos que por falta de 
intensidade no atingiram a conscincia e contedos que ainda no amadureceram para a conscincia. 
Corresponde  figura da sombra, que freqentemente aparece nos sonhos. 
 As imagens primordiais so as formas mais antigas e universais da imaginao humana. So simultaneamente 
sentimento e pensamento. Tm como que vida prpria, independente, mais ou menos como a das almas 
parciais, fceis de serem encontradas nos sistemas filosficos ou gnsticos, apoiados nas percepes do 
inconsciente como fonte de conhecimento. A idia dos anjos e arcanjos, dos tronos e potestades de Paulo, 
dos arcontes dos gnsticos, das hierarquias celestiais em Dionysius Areopagita, etc., derivam da percepo da 
relativa autonomia dos arqutipos. 
 Assim, tambm encontramos o objeto que a libido escolhe quando se v liberada da forma de transferncia 
pessoal e infantil. A libido segue sua inclinao at as profundezas do inconsciente e l vivifica o que at 
ento jazia adormecido. a descoberta do tesouro oculto, a fonte inesgotvel onde a humanidade sempre 
buscou seus deuses e demnios e todas as 
idias, suas mais fortes e poderosas idias, sem as quais o ser humano deixa de ser humano. 
Vejamos, por exemplo, um dos maiores pensamentos do sculo XIX: a idia da conservao da energia. 
Robert Mayer  o verdadeiro criador dessa idia. Ele era mdico, e no fsico ou filsofo da natureza, como 
seria de se esperar. Mas o importante  saber que a idia de Mayer no foi propriamente criada. Tambm no 
foi produto da confluncia das idias ou das hipteses cientficas da poca; ela foi crescendo dentro do seu 
criador como uma planta. Mayer escreveu o seguinte, numa carta a Griesinger (1844): A teoria no foi chocada 
em escrivaninha. (A seguir, informa sobre certas observaes fisiolgicas feitas em 1840/41 como mdico da 
Marinha). Se quisermos esclarecer certos pontos da fisiologia, prossegue em sua carta,  indispensvel 
conhecer os processos fsicos; isto se a matria no for trabalhada de preferncia do ponto de vista da 
metafsica, o que me desagrada profundamente. Ative-me, portanto,  fsica e lancei-me no assunto com tal 
paixo que pouco me interessavam as paragens exticas que percorramos (o que muitos vo achar ridculo) e 
preferia ficar a bordo, onde podia trabalhar ininterruptamente e me sentia como que inspirado durante horas a 
fio. No me lembro de ter vivido momentos semelhantes, nem antes, nem depois. Rpidos clares perpassavam 
meu pensamento (isso foi no ancoradouro de Surabaja), eram captados e imediata e avidamente perseguidos, 
levando, por sua vez, a novos objetos. Esses tempos passaram. Mas o exame calmo do que emergiu em mim 
naquela ocasio confirmou que se tratava de uma verdade. No s uma verdade subjetiva, mas uma 
verdade que tambm pode ser provada objetivamente. Se isso pode acontecer a um homem to pouco 
versado em fsica como eu,  uma questo que tenho que deixar em suspenso. 
Em sua Energetik, Heim diz que o novo pensamento de Robert Mayer no se desenvolveu pouco a pouco a 
partir do aprofundamento das idias tradicionais existentes sobre energia, mas pertence  ordem das 
idias captadas intuitivamente, provindas de outras esferas de trabalho espiritual, que 
tambm assaltam o pensamento, erigindo que os conceitos tradicionais se transformem de 
acordo com elas. 
58 
59 
 A questo agora  a seguinte: de onde surgiu a idia nova, essa idia que se imps  conscincia com to 
elementar violncia? De onde tirou a sua fora, essa fora que se apoderou da conscincia de modo a tom-la 
insensvel s inmeras atraes de uma primeira viagem aos trpicos? A resposta no  fcil. Mas, se a nossa 
teoria for aplicada ao presente caso, a explicao deve ser a seguinte: a 2cIia da energia e de sua 
conserva o deve ser uma imagem primordial, adormecida no inconsciente coletivo. 
Semelhante concluso nos obriga evidentemente a provar que tais imagens primordiais existiram efetivamente 
na histria do esprito humano e que foram ativas durante milhares e milhares de anos. Esta prova pode ser 
realmente fornecida sem maiores dificuldades. As religies mais primitivas, nas regies mais variadas 
do mundo, so fundadas nessa imagem. So as chamadas religies dinamisticas. Seu pensamento 
nico e decisivo  que h uma fora universal mgica e que tudo gira em tomo dessa fora. Tanto Taylor, o 
conhecido cientista ingls, como Prazer interpretaram essa idia como animismo, erroneamente. Na realidade, 
os povos primitivos no se referem a almas ou espritos nesse seu conceito de energia, mas a algo que o 
cientista americano Lovejoy 
qualificou acertadamente como primitive energetics. A este conceito corresponde a idia de alma, esprito, 
deus, sade, fora corporal, fertilidade, poder mgico, influncia, poder, respeito, remdio, bem como certos 
estados de nimo caracterizados pela liberao de afetos. Mulungu (precisamente este conceito primitivo de 
energia) significa, para certos polinsios, esprito, alma, ser demonaco, poder mgico, respeito; e quando 
acontece algo assombroso as pessoas exclamam mulungu. Este conceito de energia tambm  a primeira 
verso do conceito de deus entre os primitivos. A imagem desenvolveu-se em variaes sempre novas no 
decurso da histria. No Antigo Testamento a fora mgica resplandece na sara que arde em chamas diante de 
Moiss. No Evangelho manifesta-se pela descida do Esprito Santo em forma de lnguas de fogo vindas do 
cu. Em Herclito aparece como energia universal, como o fogo eternamente vivo. Entre os persas  a viva 
luz do fogo do haoma, da graa divina; para os esticos  o calor primordial, a fora do destino. Na 
legenda medieval aparece 

como a aura, a aurola dos santos, desprendendo-se em forma de chamas do telhado da cabana onde o santo 
jaz em xtase. Nas faces dos santos essa fora  vista como sol e plenitude da luz. Segundo uma interpretao 
antiga, a prpria alma  essa energia; a idia de sua imortalidade  a de sua conservao; e na acepo 
budista e primitiva da metempsicose (transmigrao da alma) reside a sua capacidade ilimitada de 
transformao e perene conservao. 
H milnios o crebro humano est impregnado dessa idia. Por isso, jaz no inconsciente de todos,  
disposio de qualquer um. Apenas requer certas condies para vir  tona. Pelo visto, essas condies foram 
preenchidas no caso de Robert Mayer. Os maiores e melhores pensamentos da humanidade so moldados 
sobre imagens primordiais, como sobre a planta de um projeto. Muitas vezes j me perguntaram de onde 
provm esses arqutipos ou imagens primordiais. Suponho que sejam sedimentos de experincias 
constantemente revividas pela humanidade. Parece que a explicao no pode ser outra. uma das experincias 
mais comuns e ao mesmo tempo mais impressionantes  o trajeto que o sol parece percorrer todos os dias. 
Enquanto o encararmos como esse processo fsico conhecido, o nosso inconsciente nada nos revela a 
respeito. No entanto, encontramos o mito herico do sol nas suas mais variadas verses.  este mito e no o 
processo fsico que configura o arqutico solar. O mesmo podemos dizer das fases da lua. O arqutipo  uma 
espcie de aptido para reproduzir constantemente as mesmas idias mticas; se no as mesmas, pelo menos 
parecidas. Parece, portanto, que aquilo que se impregna no inconsciente  exclusivamente a idia da fantasia 
subjetiva provocada pelo processo fsico. Logo,  possvel supor que os arqutipos sejam as impresses 
gravadas pela repetio de reaes subjetivas. J bvio que tal suposio s posterga a soluo do problema. 
Nada nos impede de supor que certos arqutipos j estejam presentes nos animais, pertenam ao sistema da 
prpria vida e, por conseguinte, sejam pura expresso da vida, cujo modo de ser dispensa qualquer outra 
explicao. Ao que parece, os arqutipos no so apenas impregnaes de experincias tpicas, 
incessantemente repetidas, mas tambm se comportam empiricamente como foras ou tendncias  repetio 
das mesmas experincias. Cada vez que um arqutipo 
60 
61 
aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma influncia especfica ou uma fora que lhe 
confere um efeito numinoso e fascinante ou que impele  ao. 
 Aps este comentrio sobre a formao de novas idias a partir do tesouro das imagens primordiais, voltemos 
ao processo da transferncia. Vimos que a libido captou seu novo objeto justamente nas fantasias 
extravagantes e aparentemente sem nexo, a saber: os contedos do inconsciente coletivo. Como j dizia, a 
projeo das imagens primordiais no mdico  um perigo que no pode ser subestimado no prosseguimento do 
tratamento. Essas imagens contm no s o que h de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento 
humanos, mas tambm as piores infmias e os atos mais diablicos que a humanidade foi capaz de cometer. 
Graas  sua energia especfica (pois comportam-se como centros autnomos carregados de energia), exercem 
um efeito fascinante e comovente sobre o consciente e, conseqentemente, podem provocar grandes 
alteraes no sujeito. Isso  constatado nas converses religiosas, em influncias por sugesto e, muito 
especialmente, na ecloso de certas formas de esquizofrenia. Se o paciente no conseguir distinguir a 
personalidade do mdico dessas projees, perdem-se todas as possibilidades de entendimento e a relao 
humana torna-se impossvel. Se o paciente evitar este perigo mas cair na introjeo dessas imagens, isto , se 
atribuir essas qualidades no mais ao mdico mas a si mesmo, corre um perigo to grave quanto o anterior. Na 
projeo ele oscila entre um endeusamento doentio e exagerado e um desprezo carregado de dio em relao 
ao mdico. Na introjeo passa de um auto-endeusamento ridculo para uma autodilacerao moral. O erro 
cometido em ambos os casos consiste em atri buir os contedos do inconsciente coletivo a uma determinada 
pessoa. Assim, ele prprio, ou a outra pessoa, se transforma em deus ou no diabo. Esta  a manifestao 
caracterstica do arqutipo: uma espcie de fora primordial se apodera da psique e a impele a transpor os 
limites do humano, dando origem aos excessos,  presuno (inflao!),  compulso,  iluso ou  comoo, 
tanto no bem como no mal. A est a razo por que os homens sempre precisaram dos demnios e nunca 
puderam prescindir dos deuses. Todos os homens, exceto alguns 
espcimes recentes do homo occidentalis, particularmente dotados de inteligncia, super-homens cujo 
Deus est morto 
 razo por que eles mesmos se transformam em deuses, isto , deuses enlatados, com crnios de paredes 
espessas e corao frio. O conceito de Deus  simplesmente uma funo psicolgica necessria, de natureza 
irracional, que absolutamente nada tem a ver com a questo da existncia de Deus. O intelecto humano jamais 
encontrar uma resposta para esta questo. Muito menos pode haver qualquer prova da existncia de Deus, 
que, alis,  suprfluo. A idia de um ser todo-poderoso, divino, existe em toda parte. Quando no  
consciente,  inconsciente, porque seu fundamento  arquetpico. H alguma coisa em nossa alma que tem um 
poder superior  no sendo um deus conscientemente, ento  pelo menos o estmago, no dizer de Paulo. 
Por isso, acho mais sbio reconhecer conscientemente a idia de Deus; caso contrrio, outra coisa fica em seu 
lugar, em geral uma coisa sem importncia ou uma asneira qualquer  invenes de conscincias 
esclarecidas. Nosso intelecto sabe perfeitamente que no tem capacidade para pensar Deus e muito menos 
para imaginar que ele existe realmente e como ele . A questo da existncia de Deus no tem resposta 
possvel. Mas o consensus gentium (o consenso dos povos) fala dos deuses h milnios e dentro de 
milnios ainda deles falar. O homem tem o direito de achar sua razo bela e perfeita, mas nunca, em hiptese 
alguma, ela deixar de ser apenas uma das funes espirituais possveis, e s cobrir o lado dos fenmenos do 
mundo que lhe diz respeito. A razo, porm,  rodeada de todos os lados pelo irracional, por aquilo que no 
concorda com ela. Essa irracionalidade tambm  uma funo psquica, o inconsciente coletivo, enquanto a 
razo  essencialmente ligada ao consciente. A conscincia precisa da razo para descobrir uma ordem no caos 
do universo dos casos individuais para depois tambm cri-la, pelo menos na circunscrio humana. Fazemos 
o esforo louvvel e til de extirpar na medida do possvel o caos da irracionalidade dentro e fora de ns. Ao 
que tudo indica, j estamos bastante avanados neste processo. Um doente mental me disse outro dia: Dr., 
hoje  noite desinfetei o cu inteiro com cloreto mercrico, mas no descobri deus nenhum. Foi mais ou 
menos o que nos aconteceu. 
O velho Herclito, que era realmente um grande sbio, descobriu a mais fantstica de todas as leis da 
psicologia: a funo 
62 
63 
reguladora dos contrrios. Deu-lhe o nome de enantiodromia (correr em direo contrria), advertindo que 
um dia tudo reverte em seu contrrio. (Lembro aqui o caso do empresrio americano, que ilustra claramente 
isso). A cultura racional dirige-se necessariamente para o seu contrrio, ou seja, para o aniquilamento irracional 
da cultura. No devemos nos identificar com a prpria razo, pois o homem no  apenas racional, no pode e 
nunca vai s-lo. Todos os mestres da cultura deveriam ficar cientes disso. O irracional no deve e no pode ser 
extirpado. Os deuses no podem e no devem morrer. H pouco, dizia que sempre parece haver algo como um 
poder superior na alma humana. Se no  a idia de Deus,  o estmago, para empregar a expresso de Paulo. 
Com isso pretendo deixar expresso o fato de sempre haver um impulso ou um complexo qualquer que 
concentra em si a maior parcela da energia psquica, obrigando o eu a colocar-se a seu servio. Habitualmente, 
 to intensa a fora de atrao exercida por esse foco de energia sobre o eu que este se identifica com ele, 
passando a acreditar que fora e alm dele no existe outro desejo ou necessidade.  assim que se forma uma 
mania, monomania, possesso ou uma tremenda unilateralidade que compromete gravemente o equilbrio 
psquico. O poder de concentrar toda a capacidade num ponto s  sem dvida alguma o segredo de certos 
xitos, razo por que a civilizao se esfora ao mximo em cultivar especializaes. A paixo, ou seja, a 
acumulao de energia em torno de uma monomania  o que os antigos chamavam de deus. E mesmo na 
linguagem atual isso ainda persiste. As pessoas dizem: Fulano endeusou isso ou aquilo. Estamos certos de 
que ainda podemos querer ou escolher e no percebemos que j estamos possessos, que o nosso interesse j 
 senhor e usurpou todo o poder. Esses interesses so como deuses: quando reconhecidos e aceitos por 
muitos, pouco a pouco formam uma igreja, agrupando ao seu redor todo um rebanho de fiis. Chamamos a 
isso organizao. Segue-se a reao desorganizadora, que pretende expulsar o demnio com Belzebu. A 
enantiodromia, ameaa inevitvel de qualquer movimento que alcana uma indiscutvel 
64 
superioridade, no  a soluo do problema, porque em sua desorganizao  to cega quanto em sua 
organizao. 
S escapa  crueldade da lei da enantiodromia quem  capaz de diferenciar-se do inconsciente. No atravs da 
represso do mesmo  pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas  mas colocando-o 
ostensivamente  sua frente como algo  parte, distinto de si. 
S mediante este trabalho preparatrio ser possvel solucionar o dilema a que aludi anteriormente. O paciente 
precisa aprender a distinguir o eu do no-eu, isto , da psique coletiva. Assim, adquire o material com que vai 
ter que se haver da em diante e por muito tempo ainda. A energia antes aplicada de forma inaproveitvel, 
patolgica, encontra seu campo apropriado. Para diferenciar o eu do no-eu  indispensvel que o homem  na 
funo de eu  se conserve em terra firme, isto , cumpra seu dever em relao  vida e, em todos os sentidos, 
manifesta sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana. Tudo quanto deixar de fazer nesse 
sentido cair no inconsciente e reforar a posio do mesmo. E ainda por cima ele se arrisca a ser engolido 
pelo inconsciente. Essa infrao, porm,  severamente punida. O velho Synesius insinua que a alma 
espiritualizada (tveuwttx in) se torna deus e demnio e sofre neste estado a punio divina: o estado de 
estraalhamento do Zagreu, o estado pelo qual Nietzsche passou no incio de sua doena mental. A 
enantiodromia  o estar dilacerado nos pares contrrios. Estes so prprios do deus e, portanto, do homem 
divinizado, que deve sua semelhana a Deus  vitria sobre seus deuses. Assim que comeamos a falar do 
inconsciente coletivo, ns nos colocamos numa esfera, numa etapa do problema que no pode ser levada em 
conta no incio da anlise prtica de jovens ou de pessoas que ficaram por demasiado tempo no estgio 
infantil. Quando as imagens de pai e me ainda tm que ser superadas e quando ainda tem que ser conquistada 
uma parcela de experincia da vida exterior, que o homem comum possui naturalmente,  
melhor nem falar de inconsciente coletivo, nem do problema dos contrrios. Mas, assim que as coisas 
transmitidas pelos pais e as iluses juvenis estiverem superadas ou, pelo menos, a ponto de serem superadas, 
est na hora de falar do problema dos contrrios e do inconsciente coletivo. Neste ponto j nos encontramos 
fora do alcance das redues freudianas e adlerianas. O que preocupa no  mais a questo 
 65 
de como desembaraar-se de todos os empecilhos ao exercicio de uma profisso, ao casamento ou a fazer qualquer coisa 
que signifique expanso de vida. Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da 
vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignao e saudosismo). 
 Nossa vida compara-se  trajetria do sol. De manh o sol vai adquirindo cada vez mais fora at atingir o brilho e o calor 
do apogeu do meio-dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avanar constante no significa mais aumento e sim diminuio 
de fora. Sendo assim, nosso papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que 
se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstculos que dificultam sua expanso e ascenso. Quanto  ltima, porm, 
temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida. Um jovem inexperiente pode pensar que os velhos podem ser 
abandonados, pois j no prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trs e s servem como escoras petrificadas 
do passado.  enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expanso, que uma 
mulher esteja liquidada ao entrar na menopausa. O entardecer da vida humana  to cheio de significao quanto o 
perodo da manh. S diferem quanto ao sentido e inteno. O homem tem dois tipos de objetivo, O primeiro  o 
objetivo natural, a procriao dos filhos e todos os servios referentes  proteo da prole; para tanto,  necessrio 
ganhar dinheiro e posio social. Alcanado esse objetivo, comea a outra fase: a do objetivo cultural. Para atingir o 
primeiro objetivo, a natureza ajuda; e, alm dela, a educao. Para o segundo objetivo, contamos com pouca ou nenhuma 
ajuda. Freqentemente reina um falso orgulho que nos faz acreditar que o velho tem que ser como o moo ou, pelo menos, 
fingir que o , apesar de no intimo no estar convencido disso.  por isso que a passagem da fase natural para a fase 
cultural  to tremendamente difcil e amarga para tanta gente; agarram-se s iluses da juventude ou a seus filhos para 
assim salvar um resqucio de juventude. Pode-se notar isso principalmente nas mes que pem nos filhos o unico sentido 
da vida e acreditam cair num abismo sem fundo se tiverem que renunciar a eles. No  de admirar que muitas neuroses 
graves 
se manifestem no incio do outono da vida.  uma espcie de segunda puberdade ou segundo perodo de 
impetuosidade, no raro acompanhado de todos os tumultos da paixo (idade perigosa). Mas as antigas 
receitas no servem mais para resolver os problemas que se colocam nessa idade. Tal relgio no permite girar 
os ponteiros para trs. O que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da 
vida tem que encontrar dentro de si. Estamos diante de novos problemas, e no so poucas as dores de 
cabea que o mdico tem por causa disso. 
A passagem da manh para a tarde  uma inverso dos 115 antigos valores.  imperiosa a necessidade de se 
reconhecer 
o valor oposto aos antigos ideais, de perceber o engano das convices defendidas at ento de reconhecer e 
sentir a inverdade das verdades aceitas at o momento, de reconhecer e sentir toda a resistncia e mesmo a 
inimizade do que at ento julgvamos ser amor. No so poucos os que, vendo-se envolvidos no conflito dos 
contrrios, se desvencilham de tudo quanto lhes parecera bom e desejvel, tentando viver no plo oposto ao 
seu eu anterior. Mudanas de profisso, divrcios, converses religiosas, apostasias de todo tipo so 
sintomas desse mergulho no contrrio. A desvantagem da converso radical ao seu contrrio  a represso da 
vida passada, o que produz um estado de desequilbrio to grande quanto o anterior, quando os contrrios 
correspondentes s virtudes e valores conscientes ainda eram recalcados e inconscientes. s perturbaes 
neurticas anteriores, determinadas pela inconscincia das fantasias antagnicas, correspondem agora novas 
perturbaes, provocadas pela represso dos dolos antigos. Cometemos um erro grosseiro ao acreditar que o 
reconhecimento do desvalor num valor ou da inverdade numa verdade impliquem na supresso desses valores 
ou verdades. O que acontece  que se tomam relativos. Tudo o que  humano  relativo, porque repousa 
numa oposio interior de contrrios, constituindo um fenmeno energtico. A energia, porm,  produzida 
necessariamente a partir de uma oposio que lhe  anterior e sem a qual simplesmente no pode haver 
energia. Sempre  preciso haver O alto e o baixo, o quente e o frio, etc., para poder realizar-se o processo da 
compensao, que  a prpria energia. Portanto, a tendncia a renegar todos os valores anteriores para 
favorecer o seu contrrio  to exagerada quanto a unilateralidade anterior. Mas, quando se descartam os 
valores incontestveis 
66 
67 
e universalmente reconhecidos, o prejuzo  fatal. Quem age desta forma perde-se juntamente com os seus 
valores, como Nietzsche j dissera. 
 No se trata de uma converso no seu contrrio, mas de uma conservao dos antigos valores, 
acrescidos de um reconhecimento do seu contrrio. Isto significa conflito e ruptura consigo mesmo. 
 compreensvel que assuste, tanto filosfica como moralmente; por isso,  mais freqente procurar a soluo 
no enrijecimento convulsivo dos pontos de vista defendidos at ento do que numa converso no seu 
contrrio.  preciso reconhecer que esse fenmeno, alis extremamente -antiptico em homens de certa idade, 
encobre um mrito considervel; pelo menos no se transformam em apstatas, mantm-se de p e no caem 
na indefinio e na lama. No s transformam em falidos, mas apenas em rvores que definham 
 testemunhas do passado, para falarmos com um pouco mais de cortesia. Mas os sintomas concomitantes, 
rigidez, petrificao, bitolamento, incapacidade de evoluir, dos laudatores temporis acti so desagradveis e 
at prejudiciais, pois a maneira de representar uma verdade ou outro valor qualquer  to rgida e violenta que 
a rudeza tem mais fora de repulso do que o valor possui fora de atrao  e com isso se obtm o contrrio do 
que se desejava. No fundo, o motivo do enrijecimento  o medo do problema dos contrrios. O sinistro irmo 
de Medardo  pressentido e secretamente temido. Por isso  que s pode existir uma verdade e uma norma de 
conduta, e esta tem que ser absoluta. Caso contrrio, no h proteo contra a ameaa da derrocada, 
pressentida em toda parte, menos em si mesmo. Mas o mais perigoso revolucionrio est dentro de ns 
mesmos. Quem quiser transferir-se so e salvo para a segunda metade da vida, tem que saber disso. No 
entanto, a aparente segurana de que gozvamos at ento  substituida por um estado de insegurana, 
ruptura e convices contraditrias. O pior deste estado  que aparentemente no h sada. Tertium non 
datur, diz a lgica, no existe terceiro. 
 As necessidades prticas do tratamento dos doentes obrigaram-me a buscar meios e caminhos que me 
guiassem para fora desse estado inaceitvel. Cada vez que o homem se encontra diante de um obstculo 
aparentemente intransponvel, ele recua; faz uma regresso, para usar a expresso tcnica. Recua ao tempo 
em que se encontrava numa situao parecida e tentar empregar novamente os meios que outrora lhe ha via 
servido. Mas o que ajudava na juventude j no tem eficcia. De que serviu ao empresrio americano voltar ao antigo 
trabalho? Simplesmente no adiantava mais. A regresso continua at a infncia (por isso muitos neurticos velhos se 
infantilizam) e finalmente at o tempo anterior  infncia. Isto soa como uma aventura; na realidade, porm, trata-
se de algo que no s  lgico mas tambm possvel. 
Mencionamos anteriormente o fato de o inconsciente con- ter como que duas camadas: uma pessoal e outra coletiva. A 
camada pessoal termina com as recordaes infantis mais remotas; o inconsciente coletivo, porm, contm o tempo pr. 
infantil, isto , os restos da vida dos antepassados. As imagens das recordaes do inconsciente coletivo so imagens 
no preenchidas, por serem formas no vividas pessoalmente pelo indivduo. Quando, porm, a regresso da energia 
psquica ultrapassa o prprio tempo da primeira infncia, penetrando nas 
pegadas ou na herana da vida ancestral, a despertam os quadros mitolgicos: os arqutipos. Abre-se ento um mundo 
espiritual interior, de cuja existncia nem sequer suspeitvamos. Aparecem contedos que talvez contrastem violentamente 
com as convices que at ento eram nossas.  tal a intensidade desses quadros, que nos parece inteiramente 
compreensvel que milhes de pessoas cultas tenham aderido  teosofia ou  antropossofia, pois esses sistemas gnticos 
modernos vm ao encontro da necessidade de exprimir e formular os indizveis acontecimentos interiores. As outras formas 
de religio crist existentes, inclusive o catolicismo, no o conseguiram, apesar de este ser capaz de exprimir muito melhor 
do que o protestantismo tais realidades interiores, atravs de simbolismos dogmticos e rituais. Mas, mesmo assim, nem no 
passado, nem no presente, atingiu a plenitude do simbolismo pago da Antiguidade. E esta a razo por que o paganismo 
permaneceu ainda por muitos sculos na era crist, transformando-se pouco a pouco em correntes subterrneas. Estas 
nunca perderam totalmente sua energia vital, desde a Baixa Idade Mdia at a 
68 
69 
Idade Moderna. Na realidade, desapareceram da superfcie; no entanto, transfiguradas, voltam de novo para 
compensar a uni- lateralidade da orientao da conscincia moderna. Nossa conscincia est impregnada de 
cristianismo e  quase inteiramente por ele formada; por isso a posio inconsciente dos contrrios no pode 
ser aceita, simplesmente porque parece excessiva a contradio com as concepes fundamentais dominantes. 
Quanto mais unilateral, rgida e incondicional for a defesa de um ponto de vista, tanto mais agressivo, hostil e 
incompatvel se tornar o outro, de modo que a princpio a reconciliao tem poucas perspectivas de sucesso. 
Mas, se o consciente pelo menos reconhecer a relativa validade de todas as opinies humanas, o contrrio 
tambm perde algo de sua incompatibilidade. Entretanto, esse contrrio procura uma expresso adequada, por 
exemplo, nas religies orientais, no budismo, no hindusmo e no taosmo. O sincretismo (mistura e combinao) 
da teosofia vem amplamente ao encontro dessa necessidade e explica o seu elevado nmero de adeptos. 
xi Atravs da ocupao ligada ao tratamento analtico, surgem experincias de natureza arquetpica  procura 
de expresso e forma. Evidentemente, no  esta a nica maneira de se experimentar coisas desse tipo. No raro 
se produzem experincias arquetpicas espontneas, no apenas em pessoas com um esprito psicolgico. 
Muitas vezes fiquei sabendo de sonhos e vises extraordinrios de pessoas de cuja sade mental nem o 
prprio especialista podia duvidar. A experincia do arqutipo  freqentemente guardada como o segredo 
mais intimo, visto que nos atinge no mago. uma espcie de experincia primordial do no-eu da alma, de um 
confronto interior, um verdadeiro desafio.  compreensvel que se procure socorro em imagens paralelas; o 
acontecimento original poder ser reinterpretado de acordo com imagens alheias com a maior facilidade. Um 
caso tpico desses  a viso da Trindade do Irmo Niklaus von der Fle. Outro exemplo  a viso da cobra de 
mltiplos olhos, de Incio de Loyola, que a princpio foi interpretada como sendo uma viso divina e depois 
como uma viso diablica. Atravs de reinterpretaes desse tipo, a experincia original  substituida por 
imagens e palavras emprestadas de fontes estranhas e por interpretaes, 
idias e formas que no nasceram necessariamente no nosso cho e, sobretudo, no esto ligadas ao nosso 
corao, mas apenas  cabea. E a cabea nem mesmo  capaz de as pensar claramente porque jamais as teria 
inventado. So um bem roubado, que no prospera. O sucedneo transforma as pessoas em sombras, 
tornando-as irreais. Colocam letras mortas no lugar de realidades vivas e assim vo se livrando do sofrimento 
das oposies e vo se esgueirando para um mundo fantasmagrico, plido, bidimensional, onde murcha e 
morre tudo o que  criativo e vivo. 
Os acontecimentos indizveis provocados pela regresso ao tempo pr-infantil no exigem sucedneos, mas 
uma realizao individual na vida e na obra de cada um. Aquelas imagens se formaram a partir da vida, do 
sofrimento e da alegria dos antepassados e querem voltar de novo  vida, com experincia e como ao. Mas 
por causa de sua oposio  conscincia no podem ser traduzidas imediatamente para o nosso mundo, mas  
preciso achar um caminho intermedirio conciliatrio entre a realidade consciente e a inconsciente. 
70 
71 
